Sumário
A força de vontade pode não ser o suficiente para o tratamento da obesidade. Essa disfunção é oficialmente reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença crônica, recidivante, progressiva e multifatorial. No entanto, no dia a dia do consultório, ainda recebo pacientes carregados de culpa, frustrados por não entenderem por que o esforço na academia e na dieta não se reflete na balança.
Se isso acontece com você, saiba que obesidade não é falta de força de vontade!
Existe uma biologia complexa que regula o nosso peso corporal. Quando essa regulação falha, o simples ato de “comer menos e gastar mais” torna-se uma batalha bioquímica que o paciente raramente vence sozinho.
Neste artigo, vou detalhar como a endocrinologia moderna atua para corrigir essas rotas metabólicas, indo muito além do conselho simplista de “fechar a boca”.
-
Diagnóstico metabólico: o fim do “achismo”
O ganho de peso excessivo ou a dificuldade extrema de emagrecer não ocorrem por acaso. Muitas vezes, o paciente acredita que seu metabolismo está “lento” ou “travado”, mas a realidade é mais técnica.
Antes de qualquer prescrição, precisamos mapear o terreno biológico. O endocrinologista realiza uma investigação rigorosa para identificar “barreiras invisíveis” à perda de peso. Estamos falando de condições como resistência à insulina, hipotireoidismo não tratado, obesidade sarcopênica (excesso de gordura corporal em conjunto a baixas massa e função muscular), herança genética, entre outras que, sem entendimento e tratamento, trarão a qualquer dieta um teto curto de eficácia.
-
A base obrigatória: estilo de vida com estratégia
É fundamental ser honesto: a medicina não substitui a sua parte no processo. O uso de medicamentos sem a concomitante mudança de hábitos — reeducação alimentar real e treino de força — é insustentável.
Eu costumo explicar que a medicação cria a “janela de oportunidade” biológica, mas sem dieta e treino os resultados são efêmeros. O exercício físico é o principal sinalizador para a manutenção da massa muscular. Perder peso perdendo músculo é o pior cenário para o seu metabolismo, pois facilita o reganho futuro. Assim, o plano de tratamento deve visar a queima de gordura enquanto blinda sua musculatura.
-
Neuromodulação: controlando a fome e a saciedade
Você já sentiu que seu cérebro e seu estômago falam línguas diferentes? A ciência explica isso. Em pacientes com obesidade, há frequentemente uma falha na comunicação entre o intestino e o hipotálamo (o centro de controle da fome no cérebro).
Hoje, vivemos uma revolução no tratamento da obesidade com o advento dos análogos de GLP-1 e os agonistas duplos (GLP-1 e GIP). Diferente dos antigos inibidores de apetite que causavam agitação, essas medicações modernas atuam de forma inteligente promovendo:
- Aumento da saciedade e redução do esvaziamento gástrico: você se sente satisfeito com porções menores.
- Redução do food noise, o “ruído alimentar”: aquela vontade incontrolável e o pensamento constante em comida diminuem.
- Melhora da sensibilidade à insulina: o uso da glicose pelo corpo é otimizado.
O objetivo não é tirar o prazer de comer, mas devolver o controle sobre as escolhas alimentares, permitindo que a reeducação alimentar seja implementada sem sofrimento.
Atenção: a automedicação é perigosa. O que funcionou para o seu vizinho pode ser prejudicial para você! Em consultório, avalio seu histórico cardíaco, familiar e clínico para definir a melhor estratégia — farmacológica ou não — para o seu caso.
Buscar atalhos e falsificações pode trazer consequências graves a sua saúde. Tratamento de obesidade é com especialista!
-
O contexto social em Blumenau e região
Nossa região possui uma cultura gastronômica riquíssima e tentadora. Festas, encontros sociais e culinária típica fazem parte da nossa identidade. Um tratamento que exige isolamento social está fadado ao fracasso.
O acompanhamento endocrinológico busca permitir que você participe desses momentos. O objetivo é desenvolver flexibilidade metabólica: ter saúde para aproveitar uma exceção no fim de semana sem que isso desmorone todo o progresso da semana.
Tratamos a obesidade para que você ganhe qualidade de vida, e não para que se torne refém de restrições impraticáveis. Este é um dos tópicos da nossa consulta — o contexto social importa!
-
A Ciência da manutenção: vencendo o “Set Point”
Talvez o dado mais cruel da obesidade seja este: o corpo humano é programado biologicamente para recuperar o peso perdido. Chamamos isso de teoria do Set Point. Quando você emagrece, seu cérebro entende isso como uma ameaça à sobrevivência e ativa mecanismos de defesa: aumenta a fome e economiza energia.
É por isso que o acompanhamento contínuo é vital. O tratamento da obesidade não é uma corrida de 100 metros, é uma maratona. As consultas periódicas servem para ajustar doses, monitorar a composição corporal e, principalmente, traçar estratégias para evitar o efeito sanfona.
Se você cansou de lutar contra a sua própria biologia e busca um tratamento pautado em ciência, evidência e respeito à sua saúde, o caminho é buscar ajuda especializada. A obesidade é uma doença séria, e merece ser tratada com a mesma seriedade. Eu posso te ajudar com isso, envie uma mensagem para a minha secretária (link).
3. Bibliografia consultada:
- DIRETRIZES BRASILEIRAS (ATUALIZAÇÃO 2024) ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA PARA O ESTUDO DA OBESIDADE E SÍNDROME METABÓLICA (ABESO). Manual de Diretrizes para o Enfrentamento da Obesidade na Saúde Suplementar Brasileira. 3. ed. São Paulo: ABESO, 2024. Disponível em: https://abeso.org.br/wp-content/uploads/2024/07/MANUAL-DE-DIRETRIZ-PARA-O-ENFRENTAMENTO-DA-OBESIDADE-NA-SAUDE-SUPLEMENTAR-BRASILEIRA-V5.1.pdf. Acesso em: jan. 2026.
- ESTUDO “SURMOUNT-1” (TIRZEPATIDA – NEJM 2022) JASTREBOFF, A. M. et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. The New England Journal of Medicine, v. 387, p. 205-216, 2022. Disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2206038. Acesso em: jan. 2026..
- ESTUDO “SELECT” (SEMAGLUTIDA E CORAÇÃO – NEJM 2023) LINCOFF, A. M. et al. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Obesity without Diabetes. The New England Journal of Medicine, v. 389, p. 2221-2232, 2023. Disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2307563. Acesso em: jan. 2026..
- MANUTENÇÃO DE PESO A LONGO PRAZO (STEP 5 – 2022) GARVEY, W. T. et al. Two-year effects of semaglutide in adults with overweight or obesity: the STEP 5 trial. Nature Medicine, v. 28, p. 2083–2091, 2022. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41591-022-02026-4. Acesso em: jan. 2026.
- REVISÃO SOBRE ADAPTAÇÃO METABÓLICA (2022) MARTINS, C. et al. Metabolic adaptation to weight loss: implications for the treatment of obesity. Nature Reviews Endocrinology, v. 18, p. 513–514, 2022. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41574-022-00708-3. Acesso em: jan. 2026.










